Expresso da bola: Empate

abril 30, 2009 at 8:57 pm 4 comentários

“de repente estou só no mundo. Vejo tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha volta. Sinto-me tão isolado que sinto a distância entre mim e o meu fato. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me cercam – só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me acompanha. Elas me rondam aqui ao sol, mas são gente.”

Bernardo Soares – Fernando Pessoa

Caro parceiro de tabelinhas:

Esse sistema de “Eu FC” é complicado, o futebol profissional está cada vez mais corrompido daquela coisa que se jogava na cadência do samba, do jogo muleque, daquela coisa Heleno de Freitas e Chico Buarque. Hoje se pensa muito mais na(s) validade(s) – de constructo, de mercado e de duração – nos planos do sucesso, nos recordes, é como se querem construir um crack – como tenta há anos e anos japoneses russos e alemães, em laboratório. E escuto o pai de um menino de 9 anos (tinha 8 ainda) dizer ao seu treinador: por favor, só te peço uma coisa, diz se meu filho tem futuro pro futebol, um sim ou um não, dá igual, só diga. O “mister”, por sorte ou por juízo (ou por medo de errar) não responde, Ufa, o mundo ainda não esta perdido.  

Compreendo teus problemas partidários, aqui de longe é um pouco mais fácil de identificar esse fenômeno, como diz o ditado acima. E vejo muitos na mesma situação. Creio que o cerne esta na base. Fomos aquele time que durante o amadorismo realmente amou e conquistou todos os canecos possíveis. Não só jogávamos por música, como orquestra, fazíamos rap de improviso, muitos gols de letras.

Agora (já faz um tempinho na verdade) que o tempo e a competência nos alçaram ao time de cima, aos times, pois a vida mambembe e real não nos permitiria levar a academia, a squadra, toda à equipe principal.. Sabíamos disso tanto, que com um esforço bastante grande conseguimos reunir somente (?) três dos boleiros para a festa de gala de despedida da equipe de juniores, tu estavas lá, eu também.

Cada um por um lado, nossos empresários, chamados por alguns de desejo, por outros de necessidade, ou entendidos como a bola, distribuíram o time. Alguns jogam a mesma liga, mas por equipes e em posições diferentes, há quem há buscado o futuro no ortodoxo futebol inglês, há quem se importe mais com salário que com a performance, há quem há mudado de posição no campo, mas todos ainda jogam, com a esperança que a pelada seja eterna, mas toca o despertador e tem que treinar no ginásio e fazer trabalho físico, bom se todos os jogos fossem em uma tarde de verão num canteiro de Remanso.

E o fenômeno surpreende a todos com decisões sobre seu futuro, Adriano mesmo que genial chega atrasado e treina de ressaca, Kaká deixa a mulher, Ronaldinho não sorri tanto, Zé Roberto mudou o penteado, e o Cicinho.. Alguém sabe por onde anda o Cicinho??

Todos podem se ver de uma forma ou de outra, tem meios para isso, podem conquistar muitas coisas ainda, mas sabem que aquela época da copa de 2006 é passado.

Contudo todos, todos, do goleiro ao ponta-direita, ainda que se vejam que falem da época e da equipe de ouro, que tenham companheiros bons, e maus, a quem passar a bola; todos, quem sabe, mais tu e eu, sentem falta do colega próximo, com o mesmo dorsal, mas de técnica um pouco (ou muito) distinta, a quem com somente um olhar, ou melhor ainda, sem olhar até, sabe onde o outro estará, para lançar uma bola, uma interpretação, um questionamento, uma piada, uma discussão ou simplesmente um anseio que será escutado.

 

continua…

.

 

(por que não é uma opção parar)

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Rota incerta Freud visita a Catalunya

4 Comentários Add your own

  • 1. Rita  |  maio 1, 2009 às 9:24 am

    Ai, Maurinho, que legaaaaaaaal! Você escreveu um monte, em vários campos, cheguei ao morro e era a Copa do Mundo! Cada jogador com o seu estilo, uns explorando os meandros da linguagem, outros desenterrando percepções, e vejo tu escrevendo apaixonadamente sobre a poética do viver. Não sei explicar o que é, mas contagia! Nunca tinha reparado que futebol é poesia.

    Responder
  • 2. Virgilina  |  maio 3, 2009 às 10:46 pm

    Futebol é poesia, tua análise está muito boa, mas sou suspeita para avaliar. Acompanho tua paixão pelo futebol, e fico feliz ao perceber a clareza que tens sobre este esporte que contagia a todos . Tu sabes que sou da época em que o jogador defendia o clube que pertência com paixão, e alegria, hoje é só dinhairo. Mas é assim. Na real o que me enche de alegria e orgulho e quero te dize é que teus textos, são ótimos, tu escreves com o coração, e tudo que se faz com o coração se faz muito bem.
    Beijos

    Responder
  • 3. guto  |  maio 5, 2009 às 1:21 am

    sim, continuo.

    p.s.: DONA VIRGI comentando! ROOTS

    Responder
  • 4. Lu  |  maio 7, 2009 às 1:45 am

    eu te leio, rapaz!

    Responder

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